Sempre odiei despertadores.
No começo, eu achava que era porque aquele barulho ensurdecedor era indigno de acordar qualquer pessoa.
Depois eu cresci.
E vi que o tempo que eu tinha quando criança era o tempo que não acaba. Aquele que custa a passar, que demora a trazer a surpresa, que demora a abrir o embrulho, que demora a chegar os pais do trabalho, que demora a passar o filme do dia das crianças na TV.
Passei por outro tempo, depois deste, um tempo que me dizia na adolescência para viver tudo num segundo. Um tempo de tempestades de emoções e longos hiatos sem reflexões.
Ainda vivo presa nessas hiatos.
Vivo um tempo maluco, que coloca todos os anteriores num caldeirão de existência e tenta reoganizá-lo, mas como separar as receitas de um bolo já pronto?
Vivo um tempo de reflexões sem hiatos. Não há tempo para os hiatos, há sobrevivêcia.
Vivo um tempo de desconstrução de frases feitas e reaprendizado de velhas práticas, que, ao cabo das horas, nunca foram aprendidas.
Acho que nasci agora, pelo menos minha consciência sobre as coisas nasceu agora.
E, nascendo a cada instante, eu entendo hoje que do despertador que odiei ontem, não sobrou o barulho, sobrou a ditadura de me dizer: é tempo de acordar.




Já falei que sou seu fã?
Ótimo texto!